Sexta-feira, Novembro 07, 2008
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Deflagrado por Iosif Virgiliovitch,
1:29 AM
Segunda-feira, Outubro 27, 2008
Série Torquemada
O barbeiro de Hitler
Três anos depois recebemos uma ligação de Nicolai Rebostov, o repórter que entrevistou o Minotauro. Tentava empurrar uma nova pauta furada. Disse ter encontrado um homem chamado Helmut Siefringer, um alemão de 95 anos, em uma cidade chamada Almirante Tamandaré, em um lugar chato chamado Brasil. Siefringer, garante Rebostov, foi o barbeiro de Adolf Hitler entre 1929 e 1945. Nosso repórter teria se perdido no labirinto de Creta e encontrado uma passagem que leva ao quintal do alemão, em uma chácara onde vive desde 1947. Segundo a vizinhança, Siefringer mantém contato com discos voadores e distribui balas para as crianças. É claro que engolimos a história. A seguir, os melhores trechos da entrevista com Helmut Siefringer, o barbeiro de Hitler.
"Eu projetei aquele bigode"
Por Nicolai Rebostov
De Almirante Tamandaré
Helmut Siefringer tem 95 anos e todos os dias distribui guloseimas para as crianças que vivem perto de sua chácara em Almirante Tamandaré. Quem vê este pacato senhor não imagina que durante todos os dias ao longo de 16 anos, entre 1929 e 1945, ele empunhou uma navalha perto do pescoço de Adolf Hitler. Siefringer foi o barbeiro oficial do III Reich; fez a cabeça da raça ariana por um bom tempo, até o circo acabar, mas seus crimes de guerra foram esquecidos. Não se sabe como veio parar nesta chácara, eu mesmo não sei como vim parar aqui. A partir de uma rigorosa pré-apuração com a vizinhança e meia dúzia de poloneses chatos, a reportagem de O Mujique! descobriu que o alemão costuma desaparecer nos buracos de sua chácara e mantém contato com discos voadores. Nesta entrevista exclusiva, Siefringer conta tudo o que sabia sobre os campos de concentração, o Minotauro e os fios de cabelos do führer que foram levados para a Antártida por submarinos.
O Mujique: Poderia nos contar um pouco de sua história até se tornar barbeiro de Hitler?
Helmut Siefringer: Nasci em uma cidade chamada Weil am Rhein, no sul da Alemanha. Meu pai era ferreiro e morreu quando eu era criança. Comecei a cortar cabelo porque não sabia fazer mais nada, mas a crise era feia e as pessoas não cortavam o cabelo. Vaguei por várias cidades até me encostar em uma cervejaria em Munique, eles ofereciam o corte de cabelo, porque ninguém mais tinha dinheiro pra cortar o cabelo, mas pra beber eles tinham. Eu cortava os cabelos e eles bebiam, eu conseguia comer e tinha onde dormir. Cortei o cabelo dos comunistas, quando comecei a cortar o cabelo da aristocracia, quando achei que ia me dar bem, chegaram os nacional-socialitas. Eram cheios de idéias, então comecei a criar cortes especiais pra eles.
O Mujique: E o Hitler?
Siefringer: Eu projetei aquele bigode. Ele queria algo “do novo mundo”, era isso que ele dizia, mas ao mesmo tempo “pastoril". Queria ver alemãs gordas carregando tortas quentes pelo campo. Em 1933, me tornei o barbeiro oficial do Reich.
O Mujique: Por que o Reich precisava de um barbeiro oficial?
Siefringer: Era a necessidade! Desenvolvi o corte da juventude hitlerista, treinei os oficiais de barbearia. Foi uma longa preparação, muitos anos de estudos. Desenvolvi o penteado Anschluss, a turma da Polônia ganhou seu próprio corte. Criei o corte Maginot para motivar ainda mais as tropas do Ocidente. A Lufftwaffe tinha seu próprio corte, o Afrikakorps também.
O Mujique: No Leste não funcionou muito bem, presumo?
Siefringer: Não foi culpa do corte.
O Mujique: De quem foi a culpa?
Siefringer: Isso não vem ao caso. Eu não sou historiador.
O Mujique: Com que periodicidade o führer cortava o cabelo?
Siefringer: Toda semana. E a barba eu fazia todos os dias. E naquela semana ele não me chamou, comecei a ficar preocupado.
O Mujique: Que semana? Preocupado com quê?
Siefringer: A última semana dele. Fiquei pensando que alguma coisa poderia ter acontecido.
O Mujique: O que poderia ter acontecido?
Siefringer: Ele podia ter morrido.
O Mujique: E isso não seria bom para a humanidade?
Siefringer: Não para a humanidade próxima a ele. Eu, por exemplo.
O Mujique: Por quê?
Siefringer: Eu tinha o melhor emprego da Europa. Ele era dono de tudo.
O Mujique: Não era. De tudo não.
Siefringer: Mas estava em vias de. Em vias de. Estive em vários locais. O melhor foi passar uma descompostura nos colegas franceses, arrogantes e defasados.
O Mujique: E ele morreu naquela semana?
Siefringer: Morreu.
O Mujique: E não cortou o cabelo antes de morrer?
Siefringer: Cortou sim. Quer dizer, eu cortei.
O Mujique: E o que ele disse?
Siefringer: Não disse nada, se é que você quer saber. No mínimo, queria estampar a última frase do führer na sua página. Não teve nada. No outro dia, se matou.
O Mujique: Como o senhor escapou?
Siefringer: Do mesmo jeito que aquela secretária que escreveu aquele livro.
O Mujique: Por que o senhor não deu um jeito na operação Barbarossa?
Siefringer: Porque eu não era militar. Naqueles dias eu o barbeava e ele xingava o Stalin, nunca ouvir dizer tantos palavrões. Perguntava o que eu achava do bigode do Stalin, eu dizia que era horrível. Dizia que era coisa de tomador de sopa de repolho, ele gostava. Ele achava que o Leste era bem pertinho.
O Mujique: E qual foi a reação aos primeiros sinais de fracasso?
Siefringer: Que fracasso, não houve fracasso. Quando ele ficou sabendo, já estavam dando tiro na esquina.
O Mujique: Por que o senhor não guardou um pedaço do cabelo do führer?
Siefringer: Eles roubaram e levaram no submarino.
O Mujique: Pra quê?
Siefringer: Pra nada, pra nada. Esqueça.
O Mujique: O senhor cortava o cabelo do Goebels?
Siefringer: Não.
O Mujique: Por que não?
Siefringer: Porque ele não queria cortar o cabelo comigo. Porque, em uma sociedade livre e democrática, cada um corta o cabelo com quem quiser.
O Mujique: E do Goering?
Siefringer: Algumas vezes. Mas ele vivia viajando.
O Mujique: E da Gestapo?
Siefringer: Eles tinham seus próprios barbeiros.
O Mujique: E da Eva Braun?
Siefringer: Eu era barbeiro, não cabeleireiro.
O Mujique: O senhor conheceu o Mussolini?
Siefringer: Vi de longe. Não poderia ser meu cliente.
O Mujique: O senhor é um carreirista?
Siefringer: Carreirista deve ser você.
O Mujique: Como o senhor chegou aqui?
Siefringer: De submarino.
O Mujique: Boa essa.
Siefringer: Eu cheguei de submarino sim, se não acredita por que não encerra a entrevista? Houve uma grande batalha no Atlântico Sul em 1947.
O Mujique: Sei.
Siefringer: Se eu dissesse que saí de um desses buracos aí, você acreditaria?
O Mujique: Provavelmente. Qual submarino, o mesmo que levou o cabelo do führer?
Siefringer: Mas que cabelo do führer, quem falou nisso...
O Mujique: O senhor falou nisso.
Siefringer: Mentira, delírio seu. Ninguém levou o cabelo do führer no submarino.
O Mujique: Compreendo. Fale-nos sobre Nuremberg.
Siefringer: Nuremberg é uma cidade da Bavária, cerca de 300 metros acima do nível do mar...
O Mujique: Com licença, mas eu me referia ao julgamento de Nuremberg. Fale-nos sobre o julgamento.
Siefringer: Ah, sim, aquele que teve câmeras. Tiraram dos arquivos, mas fui acusado de colaborar com o regime. No início acharam que eu era um oficial disfarçado, um conselheiro. Muitos depoimentos depois, chegaram à conclusão de que eu apenas cortava o cabelo do führer. A discussão então passou a ser outra: até que ponto alguém pode cortar o cabelo e fazer a barba de um criminoso, de um monstro, de um ditador, de um assassino, de um genocida, e ficar alheio a tudo?
O Mujique: É, até que ponto? Hein? Hein?
Siefringer: Minha defesa se baseou no seguinte argumento: cortar cabelos é uma arte, e a arte não está atrelada à política. Ela não pode estar atrelada à política. Entendeu? O artista busca as condições ideais para desenvolver a sua arte, transforma a realidade em arte, interpreta a realidade por meio da arte, enxerga a realidade através dos olhos do ideal artístico e...
O Mujique: E eles engoliram?
Siefringer: Não. Mas eu não sabia de nada, era só um... quase um copeiro. Quase um copeiro. Ouvíamos dizer que as coisas estavam indo bem, que todos tinham emprego mas que uma meia dúzia de comunistas, americanos, ingleses e canadenses faziam baderna em algum canto. Era questão de tempo. Eu nem sabia que o Canadá estava na guerra. Eu não sabia nada sobre campos de concentração e essas coisas.
O Mujique: E os campos de concentração, o que o senhor achava deles? Tinha uma opinião, viu o nascimento do projeto...
Siefringer: Eu não sabia! Eu não sabia.
O Mujique: O senhor pensava nos campos de concentração quando dava suas tesouradas, quando aplicava a navalha com cuidado para não magoar as bochechinhas do führer?
Siefringer: Eu não sabia de nada. O tribunal reconheceu isso.
O Mujique: Nessa festa toda, digo, doze anos pra lá e pra cá, em castelos luminosos, em meio ao poder... o senhor comeu alguém?
Siefringer: Pergunta descabida, digna de um desclassificado... tive relacionamentos com uma secretária.
O Mujique: Aquela que escreveu o livro?
Siefringer: Não, outra secretária. E a Leni Riefenstahl.
O Mujique: Entrevistei o Minotauro e ele também disse que comeu a Leni Riefenstahl.
Siefringer: É mentira dele. Não tinha Minotauro por lá. Minotauro não existe.
O Mujique: O senhor não viu o Minotauro por lá?
Siefringer: Não! Minotauro não existe. É mentira dele.
O Mujique: Eu estava no labirinto do Minotauro e vim parar aqui... o senhor conhece o Minotauro?
Siefringer: Não, já disse. Você mente.
O Mujique: Quem mais comeu a Leni?
Siefringer: Ninguém. Não falo sobre intimidades, seu bárbaro.
O Mujique: Ela fez algum documentário sobre a zoofilia no seio da raça ariana?
Siefringer: Creio que não. Mas são muitas as baboseiras que falam. Ela deixou trabalhos que depois foram desmontados e virados do avesso, receberam outros nomes. Uma quantidade enorme de distorções para tentar atingir a imagem dos oficiais. A zoofilia, você citou a zoofilia, pegaram cenas de altos membros do partido mantendo relações com cadelas e éguas, editaram e deixaram fora de contexto. Quem contou a história, afinal?
O Mujique: Que história?
Siefringer: Essa que você conhece.
O Mujique: Não sei.
Siefringer: Você não sabe nada.
O Mujique: Pensei que era o senhor que não sabia de nada.
Siefringer: E não sabia. Eu não sabia, por exemplo, o que é burrice até conhecer você.
O Mujique: O senhor é nazista?
Siefringer: Não. Sou um democrata. Um liberal. Um liberal democrata. Um democrata liberal.
O Mujique: O senhor tem religião?
Siefringer: Sou pagão.
O Mujique: Já notei.
Siefringer: Acredito em outros deuses, você não tem nada com isso. Este país garante a liberdade de culto.
O Mujique: Que deuses? Conta aí pra gente...
Siefringer: Odin.
O Mujique: Sei. E esses buracos no seu quintal?
Siefringer: Não são nada. Deixa pra lá. Esses buracos não existem.
O Mujique: Mas o senhor nos chamou pra mostrar o buraco.
Siefringer: Eu não chamei ninguém pra mostrar o buraco.
O Mujique: Mas os buracos existem.
Siefringer: Deve ser essa captação de água subterrânea. É água de caverna. Na Áustria eles fazem muito isso.
O Mujique: E os discos voadores?
Siefringer: Não sei, você já viu?
O Mujique: Isso não interessa, o entrevistado é o senhor.
Siefringer: Eu não vi.
O Mujique: Mas e aqueles que vão para a Antártida, levando o staff nazista?
Siefringer: Você bebe? Eles foram de submarino. Houve uma grande batalha no Atlântico Sul, em 1947. Eu fiquei aqui, o Mengele ali. Eles estavam fugindo para a Antártida, mas não precisavam de barbeiros. Tinham máquinas para raspar a cabeça e se barbear.
O Mujique: Eles chegaram à Antártida?
Siefringer: Não sei. Satisfeito? Não sei.
O Mujique: O senhor conheceu o Mengele, cortou o cabelo dele?
Siefringer: Só de vista, só de vista! Não cortei o cabelo dele.
O Mujique: Dizem que os discos voadores dos nazistas saem do centro da terra por esses buracos no seu quintal.
Siefringer: E você acreditou. Olha, agora eu tenho que sair.
O Mujique: Como eles faziam discos voadores durante a guerra? E as bombas V?
Siefringer: Eu era barbeiro. Barbeiro, sabe o que é isso?
O Mujique: O senhor fez a cabeça do Marechal Pétain?
Siefringer: Não. Não. Não, eu não fiz. E agora chega.
O Mujique: O senhor acha que as democracias ocidentais venceram a guerra dos cortes de cabelo?
Siefringer: É o que parece, não, rapaz? Veja a quantidade de cortes que eles inventaram de lá pra cá. Não parece óbvio? Você não tem senso de proporção? Entrevista encerrada.
O Mujique: Temos aqui uma denúncia do Ministério Público, segundo o promotor o senhor ofendeu uma antiga empregada de sua chácara, assediou-a moralmente, abusou dela sexualmente, despediu-a sem pagar a rescisão...
Siefringer: Vejam que baixaria, que mídia canalha! Você não respeitam ninguém, né? Vocês não têm limites, né? Vocês não sabem o que é ter um nome, né? Vocês não pensam duas vezes antes de jogar o nome das pessoas lama, né? Vocês não...
O Mujique: O senhor abusou ou não?
Siefringer: Não! E ela era maior de idade. Que desagradável...
O Mujique: O fato de ela ser maior de idade não libera abusos.
Siefringer: Não encha o saco. A justiça é a justiça, isso foi julgado e nada foi provado. Eu paguei a rescisão. Eu ainda guardo uma Mauser, posso mostrar agora como ainda funciona...
O Mujique: Bate-bola com Hellmut Siefringer, o barbeiro de Hitler. Uma cor?
Siefringer: O que interessa isso?
O Mujique: É só um bate-bola.
Siefringer: Azul.
O Mujique: Azul calcinha?
Siefringer: Azul, simplesmente azul. É só um bate-bola.
O Mujique: Wagner ou Beethoven?
Siefringer: Beethoven.
O Mujique: Nietzsche ou Kant?
Siefringer: Nietzsche.
O Mujique: Gerd Muller ou Rummenigge?
Siefringer: Gerd Muller.
O Mujique: Beckenbauer ou Matthaus?
Siefringer: Beckenbauer.
O Mujique: Klinsmann ou Littbarski?
Siefringer: Klinsmann. Mas que saco...
O Mujique: John Lennon ou Mark Chapman?
Siefringer: Mas o que é isso... me recuso...
O Mujique: Teu pai tem caixa?
Siefringer: Não.
O Mujique: Um monóculo?
Siefringer: O seu.
O Mujique: O senhor já esteve em um banho turco?
Siefringer: Agora chega.
O Mujique: Diga “olá” para as criancinhas e os jovens da Alemanha.
Siefringer: Olá, criancinhas e jovens da Alemanha. Já viram um babaca como esse... como é mesmo o seu nome?
O Mujique: Nicolai Rebostov.
Siefringer: Rebostov, um russo de bosta. Mas isso não interessa, o entrevistado sou eu.
O Mujique: Era. A entrevista está encerrada.
Siefringer: Você tem horas pra dar?
Deflagrado por Iosif Virgiliovitch,
1:46 AM
Domingo, Outubro 26, 2008
Série Torquemada
Entrevista com o Minotauro
Como não costumamos publicar entrevistas com presidentes de ongs, jovens empreendedores e outros babacas, despachamos nosso pior repórter para o velhíssimo mundo. O resultado foi surpreendente. Costuma ficar enjoado quando nas embarcações, mas não estávamos nada preocupados com isso; sabemos o que fez durante dias e dias sob o sol do Mediterrâneo. Pensou que nos engazoparia até o fim, mas na Ilha de Creta se viu obrigado a trabalhar um pouco. Deve ter feito contato com o assessor de imprensa do ser mitológico, ou quem sabe caiu dentro do labirinto e não teve como escapar da entrevista. Pode até ter sido um trabalho de investigação, o que duvido muito. O fato é que recebemos o texto e perdemos o contato com o repórter.
"Teseu era fresco"
Por Nicolai Rebostov
Da Ilha de Creta
Nem ele sabe ao certo quando nasceu; muito menos eu. Mas estava lá e recebeu a reportagem de O Mujique! na biblioteca de seu labirinto. Apesar do eterno mau humor, o filho do touro sacal com a pouco confiável Pasifae é mais educado do que aparenta: usa terno e sapatos finos, toma vinho e discorre com facilidade sobre os clássicos. Durante duas horas, o bicho que assustou as criancinhas que viam o sítio do pica-pau amarelo falou sobre algumas passagens de sua peculiar existência.
O Mujique: Seu pai era corno?
Minotauro: Meu pai tinha belos cornos, mas não havia o conceito de corno a que você se refere.
O Mujique: Qual a origem da lenda do Teseu?
Minotauro: Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Essas lendas surgem por aí, chega um velhote desocupado, reúne tudo e ficam acreditando até o fim que meu pai era corno. Só deixei essa lenda do Teseu prosperar porque me foi útil.
O Mujique: Em que ponto?
Minotauro: Durante muito tempo fiquei livre dos chatos.
O Mujique: E o Teseu?
Minotauro: Que Teseu, quem quer saber dessa história...
O Mujique: Aquele que matou você.
Minotauro: Esse Teseu era uma bichona. Disse que me matou, mas veja quem está morto. Veja a forma como o pai dele morreu, pobre velho... não merecia tamanha incompetência. Era mortal, mentira que descendia de Atena. Veja lá o que escreve, esqueça a história da Atena. Esse Teseu era fresco, pode escrever...
O Mujique: Ele esteve aqui?
Minotauro: Esteve, ele e uns gregos antigos. Como eram chatos. Era por isso que eu os devorava ainda na juventude. Nunca quis saber a linhagem de todos eles, mas insistiam.
O Mujique: Você devorou os demais?
Minotauro: Sim. Mas ele tinha projetos políticos, essas demagogias. Sempre soube que essas coisas iam dar no que deu, na balbúrdia. Mas Zeus fez vistas grossas, todos ficaram enchendo a cara e descansando nos braços de Morfeu. Nada como a velha tirania. Reclamei disso várias vezes para o meu pai.
O Mujique: E o que ele achou?
Minotauro: Nada, ele não entendia nada do que falávamos.
O Mujique: E por que Teseu não o matou?
Minotauro: Ah, mas essa é muito boa. Novelinhos de lã. Teseu não matava nada, nem o tédio, escreva isso. Fizemos um acordo, ele voltou pra Atenas dizendo que me matou e eu parei de comer as menininhas de Atenas. Em troca, ele me levava o dobro de menininhas do Egito e da Ilha de Lesbos.
O Mujique: E ele cumpriu o acordo?
Minotauro: Claro, senão eu teria voltado a comer as menininhas de Atenas.
O Mujique: Do que você se alimenta atualmente?
Minotauro: Galinhas, tenho uma criação. Alface. E cabritos. Carne suína não me faz bem. Humanos não dá mais, e não é de hoje. Veja só a lenda do Teseu: por que veio me matar? Porque eu matava pessoas. Logo, era preciso que me matasse. E daí que eu matava pessoas? Ele não mataria minotauros, se pudesse?
O Mujique: Ele não matava nada, você disse. Você já ouviu muita história pra boi dormir?
Minotauro: Muita. E tenho dormido muito bem.
O Mujique: Poderia lembrar de uma?
Minotauro: Aquela do cara que correu após a batalha de Maratona.
O Mujique: Ele não correu? Como era o nome dele mesmo?
Minotauro: Não interessa. Por que correria? A batalha já estava ganha. Ele foi andando, correu nos últimos metros.
O Mujique: Mas consta que morreu de cansaço.
Minotauro: Aí é problema dele. Pode ter sido um aneurisma, um enfarte. Muita emoção.
O Mujique: O que você fez nos últimos três mil anos?
Minotauro: Dei risada da cara da humanidade. Cansei de tanta diversão. Hoje tem internet, tv a cabo. Gosto de documentários sobre a Segunda Guerra Mundial.
O Mujique: É mesmo? Eu também.
Minotauro: Isso não interessa. O entrevistado sou eu.
O Mujique: Se você é imortal, os demais seres da era mitológica também o são?
Minotauro: Grande dedução. Seu chefe vai ficar orgulhoso.
O Mujique: Onde eles estão?
Minotauro: Não sei. Muitos ficaram revoltados com aqueles filósofos e se mandaram. O Poseidon está internado no fundo do Helesponto. Sabe o que é o Helesponto, imbecil? Nada o tira de lá. O resto está por aí, enchendo o saco, principalmente Ares. É melhor você não publicar isso.
O Mujique: Onde está Zeus?
Minotauro: Não sei, você já falou com ele?
O Mujique: Isso não interessa, o entrevistado é você. Sabe onde ele está, já falou com ele?
Minotauro: Não.
O Mujique: Como Zeus se manifesta? De que forma se dá sua relação com as demais divindades? Seria mesmo um deus? Como ele se relaciona com o sentimento de perda do poder? Seria um deus único que se manifesta de diversas formas?
Minotauro: Que é isso... São todos deuses humanos pelo que vejo, não tenho essas preocupações. Eu só comia as menininhas e os menininhos de Atenas. Pergunte para o rabino isso que você quer saber. Na lenda nem consta que eu falo.
O Mujique: Você nunca saiu daqui?
Minotauro: É claro que saí. Estive na Coréia, no Camboja e no Vietnã. Excursionei com um circo durante quatro décadas no século XIX. Mas em Bruxelas eu passei fome. Nunca ouviu falar do circo fantasma de Bruxelas?
O Mujique: Não. Qual o período mais escroto da História?
Minotauro: A Idade Média... o começo da Idade Moderna... Eu gostava da Antiguidade, aquele cheiro de areia no ar. Eu gostava do Império Romano e aquelas barbaridades todas. Eu era amigo dos generais e dos imperadores, isso ninguém fala. Escreva aí. Pensavam que eu era um centurião vestido de vaca ao lado do Tiberius. As aberrações eram muitas, era bom demais.
O Mujique: Por que você foi poupado?
Minotauro: Não passe vergonha, você sabe como eles adoravam qualquer bobagem grega. Lutei no Coliseu, era chamado de Vaca da Gália. Mas a Idade Média foi uma merda, começaram a mandar todo mundo pra fogueira por causa de um deus chifrudo. Nego que tenha sido eu. Depois estive no Cipango e só voltei para o Ocidente na época das guerras napoleônicas.
O Mujique: Foi bom pra você?
Minotauro: Já tive experiências melhores.
O Mujique: O Napoleão?
Minotauro: Ei, que papo é esse...
O Mujique: Napoleão foi um grande homem?
Minotauro: Isso não existe. Você veio aqui me perguntar isso?
O Mujique: Você vive escondido?
Minotauro: Saio com um pacote de supermercado na cabeça.
O Mujique: Sempre?
Minotauro: Na Índia não ligam pra esse tipo de coisa. Em Viena eu me passava por um ator que interpretava o Minotauro.
O Mujique: Pode citar algumas personalidades que conheceu?
Minotauro: Um monte de imperadores romanos e papas. Marco Polo, Jacques Costeau, Erasmo, Hailé Selassié, Gagarin. Ernest Borgnine era meu amigo. Comi a Leni Riefenstahl. E o Marquês de Sade, esse sim era um cara engraçado.
O Mujique: Você comeu o Marquês de Sade?
Minotauro: Eu não disse isso. Disse que era um cara engraçado.
O Mujique: Você disse "comi a Leni Riefenstahl e o Marquês de Sade".
Minotauro: Então você será processado, porque tinha um ponto entre isso tudo. Eu disse que comi a Riefe, ponto, e o Marquês de Sade eu disse que conheci, porque você perguntou quem eu conheci, e disse apenas que ele era engraçado. Você será processado porque suas más inteções brotam de sua burrice.
O Mujique: Como você conheceu a Leni Riefenstahl?
Minotauro: Eu estava nos Bálcãs quando os nazistas chegaram. Fui capturado e levado para Berlim, mas me trataram muito bem. Pediram para eu descrever práticas gregas de homoerotismo pré-socrático. A Riefe começou fazer um filme comigo sobre a vontade e o triunfo, mais vontade do que triunfo no caso dela, mas acabou se transformando em um documentário sobre a zoofilia no seio da raça ariana. Depois arranjou para que eu voltasse para Creta, até o fim daquela merda.
O Mujique: O que você pretende fazer depois que essa entrevista for publicada?
Minotauro: Nada. Estou me mudando e não direi para onde vou. Tem sido assim e o mentiroso nessa história será você. Escreva que vou para um lugar onde as mulheres são feias como as górgonas. Assim ninguém vai pra lá. Lá onde o filho do rei Minos perdeu as botas.
O Mujique: E o rei Minos como era?
Minotauro: Esse sim era corno. Olha, muita historinha pro meu gosto. Daqui a pouco você vai querer detalhes sobre a conjunção carnal entre meus pais, e eu nem estava lá. Prefiro as atualidades. Prefiro o campeonato russo de futebol.
O Mujique: Você é corno?
Minotauro: Olha lá o que vai publicar, sei como tiram as coisas de contexto. Não posso ser corno, não sou casado.
O Mujique: Você nunca se casou?
Minotauro: Vou casar com quem, tem alguma da minha espécie? Você andou bebendo antes de vir aqui?
O Mujique: Você se casaria se houvesse uma de sua espécie?
Minotauro: "Se". Se, se, se. Se não existe.
O Mujique: Por que sua preferência pela Segunda Guerra Mundial?
Minotauro: Gosto da Retirada de Dunquerque. Por favor não leve a mal, mas será que você poderia acabar a entrevista? Já estou ficando de saco cheio...
O Mujique: Bate-bola com o Minotauro: Um desejo?
Minotauro: Atena. Não escreva isso.
O Mujique: Um beijo?
Minotauro: Hefesto.
O Mujique: Um herói?
Minotauro: Próspero.
O Mujique: Uma heroína?
Minotauro: Lou Reed.
O Mujique!: Tomate cru?
Minotauro: Só pra salada.
O Mujique!: Uma música?
Minotauro: The number of the beast.
O Mujique!: Um corno?
Minotauro: Você.
O Mujique!: Que timeteu?
Minotauro: Tua irmã futebol clube.
O Mujique!: Pode mandar uma mensagem para as crianças e os jovens do Brasil?
Minotauro: Hello criancinhas e jovens do Brazil! Espero visitá-los em breve!
Deflagrado por Iosif Virgiliovitch,
3:30 PM
Quarta-feira, Outubro 22, 2008
Kolima revival!
Passado o incêndio na tribo mapipe
- Não, senhor, eu mesmo nunca fumei isso aí não senhor. Sei de um pessoal que andou fumando, mas eu nunca cheguei a falar com eles direito.
- É, e onde eles andam hoje?
- Ah, pessoal da escola, de muito tempo atrás, lá na minha cidade, o senhor não vai conhecer... eram moleques ainda, eles freqüentavam as aulas de capuz amarelo e babavam groselha, chegavam a se masturbar quando...
- O que são esses pedacinhos de mato em cima da sua mesa?
- Ah, sim, são umas ervas daninhas que andam tomando conta do quintal da minha tia. Eu trouxe para um amigo meu que é biólogo dar uma olhada. Essas plantas estão acabando com a horta da tia Amália, aí ela perguntou se eu poderia examinar essas plantas, ver se dá pra enrolá-las e...
- E essas sementes, deixa eu ver...
- Ah, são as sementes que a tia Amália me deu, parece que são de umas folhas de chá, não sei, ela tem pedra nos rins, tem mania de chá, pediu para o meu amigo ver que tipo de planta é essa, porque ela ganhou as plantas de uma benzedeira, ela diz que faziam um pouco de efeito, mas ela, vou contar uma coisa pro senhor, conta cada história, teve até uma vez que uma benzedeira estava roubando a cueca do...
- Que cheiro é esse no quarto?
- Ah, o cheiro, é, eu sei, é que andaram trocando o forro, não, não deve ser isso, eu mesmo às vezes sinto esse cheiro, o senhor também percebeu, parece que alguém anda queimando mato por aí. É esse campo, ficam fazendo queimadas, não sabem como são destrutivas, um agrônomo amigo meu falou que na terra dele fizeram tantas queimadas que a vizinha...
- Que livro é esse que você está lendo?
- Ah, esse um livro muito interessante, senhor, é sobre um casal que tira férias, estão em um navio e o marido resolve matar a mulher, mas erra o quarto, no escuro, e mata outra mulher, e aí os dois precisam se livrar do corpo, porque um está na mão do outro, entende, ela deu um golpe e ganhou uma grana e ele tentou matá-la para ficar com o dinheiro, e daí...
- A mulher era casada?
- Que mulher?
- A que morreu.
- Era, era casada, o marido dela estava no bar quando eu parei, acho que eles vão tentar deixar o cara de porre e tentar se livrar dele, pelo que disseram, o que eles não sabem é que o cara é muito rico e que estava justamente planejando matar a mulher. O senhor não imagina como esse cara, o outro, o que teve a mulher morta, faz coisas estranhas, na cozinha do navio, sabe tinha uma cozinheira africana e quatro galinhas, e...
- Como a mulher foi morta?
- Como Duncan.
- Que papel é esse dentro do livro?
- Papel? Eu não sabia que tinha um papel aí, hoje de manhã mesmo eu estava lendo, gosto de ler antes de dormir e logo depois de acordar, são as horas mais tranqüilas, sei lá, as horas em que eu me sinto mais preparado, já no fim da tarde, a essa hora, meus olhos ficam mais pesados, parece que leio melhor de manhã e à noite, de madrugada, inclusive um oftalmologista amigo meu me examinou, ele costuma examinar uma atriz que o senhor deve conhecer, a...
- Parece um papel de seda...
- Ah, sim, esse papel, olhe só, é que eu anotei o telefone de uma garota, o senhor entende, eu estava tomando café, gosto de tomar café lá pelas cinco da tarde, saio para dar uma volta e tomar um café, aí ela entrou, chamou minha atenção, mas no começo eu pensei que...
- E onde está o número do telefone dela?
- Pois é. Veja só o senhor, eram dois pedaços de papel e o outro, que tinha o número dela, sumiu. Só podia ser, eu até agora não estou acreditando. Se o senhor soubesse como eu dou azar com essas coisas, tenho até voltado àquele café, mas acho que já era. O pior é que parece que eu já a conhecia, era lá do...
- Veja, parece que o papel foi rasgado... quase não dá pra perceber. Foi dobrado e cortado.
- Ai, era só o que faltava. O pedaço que sumiu tinha o telefone dela, agora é melhor esquecer.
- Mas você não disse que eram dois pedaços de papel?
- Dois, porque eu tinha cortado o papel. E cortei bem retinho, como o senhor notou, não queria parecer relaxado. É que eu ia anotar o meu telefone nesse pedaço em branco e dar pra ela, mas não deu tempo, parece que ela estava atrasada, vai ver que eu rasguei e dei o outro pedaço pra ela, era só o que me faltava mesmo, o senhor pode ver como eu não dou sorte com essas coisas.
- Por que o seus olhos estão vermelhos?
- Estão vermelhos? Estão vermelhos de novo... É muito estudo. Eu tenho aula todo dia, e ando trabalhando muito também. Eu vou ver se tiro umas férias, ando meio contrariado com algumas coisas, não, não é essa garota, não senhor, eu tenho que juntar um dinheiro pro meu pai, ele está meio doente. Eu até consultei um médico muito amigo da minha família, falei sobre esse cansaço que eu tenho às seis da tarde, tenho muito sono, e fome também, o senhor não imagina a fome que sinto quando estou nesse estado. Um gastroenterologista, esse meu amigo.
- O que você faz da vida, o que estuda? Onde você trabalha?
- Eu, eu... sou empresário.
- Empresário de quê?
- Tenho um escritório fico lá...
- Faz o quê, o que faz essa sua empresa?
- Faz tatuagens.
- Tatuagens?
- É, só para empresários, gente que vai de terno lá mas gosta de ir para a praia no fim de semana, agora estou tendo muito trabalho, e os encargos, eu pago muito imposto, gero empregos, está tudo dentro da lei e a clientela é muito boa, tem até um administrador amigo que disse...
- E por que você não tem tatuagens?
- Ah, o meu pai era barbeiro, senhor.
- E ele não deixa?
- Ele sempre teve o cabelo comprido, porque os outros não sabiam cortar cabelo. É por isso que eu não tenho tatuagem. E eu também nunca tive vontade, acho que esse tipo de coisa serve para as pessoas mostrarem ao mundo que algo não vai bem, que queriam ser diferentes. Acho melhor enfrentar isso, o que o senhor acha, uma psicóloga muito minha amiga até disse que uma paciente dela costumava trocar de calcinha cada vez que...
- O que são esses cachimbos?
- Cachimbos? Não, não são cachimbos, deixa eu mostrar pro senhor. São miniaturas, como aquelas garrafinhas de coca-cola. Não dá pra fumar nada aqui. Meu tio Santino tinha uns cachimbos de verdade, ele fumava aqueles fumos de chocolate, de maracujá, sei lá, ficava na varanda com aquele troço fedido. Ele tentou ser vereador uma vez, mas naquela época o pessoal que vinha do interior não tinha muito acesso... ainda mais depois da história do cemitério, aquela mala cheia de dentes...
- O que são essas folhas desenhadas?
- Ah, ah, sim, são trevos da sorte, dizem que dá sorte ter esses trevos aí...
- Mas não são trevos.
- São trevos diferentes, da sorte mesmo, mas de outro lugar, acho que da floresta amazônica, lá para o Peru. Dizem que os índios de vários tribos, como a xaxuara, a paiuara, a xaxina, a haxixe...
- Como?
- Mapipe, tem a tribo mapipe. São tribos lá dos confins da floresta amazônica, o senhor nem imagina, foram eles inventaram essa história de trevo da sorte, sabia? Só que o trevo, deixa eu mostrar para o senhor, olha aqui, o trevo é bem diferente desse que nós conhecemos, é que eles contavam de outra maneira e davam nomes diferentes às coisas, tinham até outro calendário, inclusive um antropólogo amigo meu esteve lá, dia desses nós saímos para conversar e parece que eles se mordiam enquanto copulavam, e que gritavam "queimem a tribo mapipe", e a melhor parte era a troca de casais, dizem que eles...
- Por que você tem isso?
- O quê? É pra dar sorte, senhor.
- Ah. Eu também tenho vários, olhe só. Fui capitão do exército sou policial aposentado estudei contabilidade dei aula no cursinho do vestibular abri mercearia e estacionamento agora tenho lojinha de água mineral e sou síndico mas carrego meus amuletos também. E eu tenho vida reta, rapaz. E eu tenho sorte na vida, rapaz. Não sei se você tem vida reta, rapaz, não sei se você terá sorte na vida, rapaz, porque se eu te pegar de jeito eu vou te colocar daqui pra fora, rapaz, você e essas bugigangas, cada uma delas... por que você tem dois?
- Pra dar sorte tem que ter dois. E eles tiveram sorte também, muitos eram policiais da tribo e outros contavam a quantidade de peixes. Mas tem que andar com dois. É a superstição desses índios, que entraram em contato com nossos tataravós, isso, com seus bisavós. O senhor não imagina como essas coisas pegam, tem até um historiador amigo meu que escreveu uns artigos sobre isso para uma revista famosa, o senhor deve conhecer...
- Olhe, tem mais dois aqui... esses são diferentes, né?
- É que na verdade eu também vendo esses artesanatos, senhor, minha ex-mulher que fazia e eu aprendi, dava pra tirar um troco, mas agora eu vendo muito pouco, só para professores que estudam essas civilizações pré-colombianas. Não vale muito a pena, o material é muito difícil. Minha ex-mulher? Ah, fazia essas coisas, vasos de barro enormes, uns vasos gigantescos, não vendia nenhum, depois queria pintar quadros, não terminava nenhum, até falei com um artista plástico amigo meu, não valiam nada, e aquilo também foi acabando com o nosso relacionamento, o senhor deve saber como são essas coisas, e aquela amiga dela, que ficava menstruada a cada três dias...
- Dá sorte mesmo?
- Acho que sim, eu até conheci essa mulher no café...
- Mas você perdeu o telefone dela.
- É, mas não sei se perdi não. Eu já estava começando a acha quer era um golpe da sorte. Ela não estava com uma cara muito boa naquele dia, parecia que estava saindo de um relacionamento, era isso mesmo, ela estava saindo de um relacionamento. Se eu telefonasse agora, poderia estragar tudo. Ela não me trataria muito bem. Mas vou achar o papel mais tarde, alguma coisa me diz isso, e vou ligar na hora certa. Sabe, tem um amigo meu que é piloto de fórmula três mil européia, ele estava uma vez em um café em Spa-Francorchamps, e...
- Eu não sabia que você gostava de amuletos também, não posso ver amuletos. Parece que vai ficando amarelo com o tempo... por que tem esse cheiro forte?
- É a madeira.
- A madeira?
- É, a madeira que os índios usavam para fazer os cachimbos de verdade, que eram bem maiores. Dizem que essa madeira é muito boa, parece que faziam casas com essa madeira, tem um cheiro forte mas as casas eram muito boas, dizem que ainda é possível encontrar algumas dessas casas, mas é muito difícil, e caro, quem me falou foi um engenheiro amigo meu, o senhor não imagina quantas pessoas eles amarraram no trilho do trem pra contrabandear essa madeira...
- Quanto custa?
- Não faço idéia não senhor. Uma casa dessas hoje em dia... Mas posso ligar pra ele, se o senhor esperar um minuto...
- A casa não, o chaveiro.
- Um e cinqüenta, mas pro senhor eu faço por um.
- Vou levar os dois.
Deflagrado por Iosif Virgiliovitch,
4:15 AM
Segunda-feira, Outubro 06, 2008
Depois eu volto
Os idiotas falariam em buscar novos rumos, ou em repensar a utilização desta ferramenta, digo que encheu novamente o saco. Um dia publicarei todas as pérolas em edição de luxo, mas por enquanto o que me preocupa é a tradução para o francês. Qualquer coisa que eu escrevesse neste ou em outro momento seria suficiente para que me enquadrassem como adesista, oposicionista, governista, tucano, petista, demo, leninista, pelego, revoltado, conformado, getulista, neoliberal, populista, neonazista, janguista, quercista, lacerdista, estatista, chato, reacionário, politicamente correto e/ou incorreto, ecologista, militarista, desenvolvimentista, separatista, menchevique etc.
Não poderia deixar de aproveitar a oportunidade para mandar todos eles tomarem bem no meio de seus respectivos cus.
Deflagrado por Iosif Virgiliovitch,
3:02 AM
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